o furdunço de nós dois

Bahia.Ba

Como vocês já sabem, era ele… E creio que vocês precisam saber também que eu não fiquei bêbada. Eu quis estar bem sóbria para guardar muito bem aqueles momentos que seriam únicos. Andamos quase correndo, de mãos dadas até chegarmos à Avenida Centenário, onde eu fui ao banheiro. Quando saí do banheiro químico fedido, ele estava de costas, com os braços cruzados e se balançava. Não conseguia ficar parado. Cheguei por trás:

– Cadê seu celular?

– Tá aqui. Por quê?

– Porque pelo que me lembro você não largava o celular nem um minuto.

– Ah, é carnaval. Eu tô muito agitado…

– Sei…

– Vamos ali comer alguma coisa, a gente senta e conversa…

Me ofereceu a mão, que agarrei com força. Parecia que não queria que ele fugisse de novo. Mas na verdade quem fugiu mesmo fui eu. Quando nos vimos pela última vez, por acaso em um show, nós ficamos e logo em seguida eu o bloqueei e o retirei das minhas redes sociais. Um mês depois, minha gata morreu. Mais quarenta dias e eu já estava em Sampa. Então, dessa vez, eu não estava muito disposta a deixar que ele me deixasse fugir. Minha impulsividade me faz fazer coisas muito ridículas.

Sentamos em uma banquinha de cachorro quente e pedimos cerveja, enquanto o cachorro quente era finalizado. Eu nem fazia ideia do quanto estava com fome. A barriga começava a roncar enquanto o cheiro do molho invadia meu corpo, fazendo o turbilhão que ocorria dentro de mim naquele momento, piorar. Eu relembrava os momentos em que havíamos estado juntos, quase quatro anos antes, eu olhava para ele agora e simplesmente não sabia o que fazer, nem o que dizer. Comecei a me arrepender de ter vindo com ele, porque eu não sei como vai ser isso e esse encontro pode acabar com meu carnaval.

Foi ele quem quebrou o silêncio:

– Você vem todo ano pra Salvador, né? No carnaval?

– Siiim… – respondi devagar, lançando lhe olhares de estranhamento e sorrisinhos sem graça.

– Eu acompanho a revista e leio o que você escreve. E nos sites também. E no seu blog.

Arqueio as sobrancelhas.

– Quê?

– Eu acompanho a sua vida, Rafaella. Pelo menos no que você permite ou onde você não tem controle…

Eu estava ainda mais confusa e sentia o gosto do arrependimento mais uma vez chegar à minha boca. Eu não deveria ter vindo com ele. A gente vai acabar brigando. Era o que geralmente acontecia quando a gente começava a conversar.

– Você namorou o playboy lá por um ano e pouco, mas agora tá solteira. Você mora no centro de São Paulo e sempre escreve como o barulho afeta seu sono. Você ama a Starbucks, os museus e as livrarias daquela cidade, porque sim, você é muito previsível. Café, arte e livros. Aliás, se você tomar um café a menos por semana, talvez o barulho não afete tanto seu sono, sabe?

Ele falava isso tranquilamente enquanto mastigava rápido um cachorro quente e olhava para o horizonte, como se eu não estivesse ali. Eu sou louca pelo sarcasmo dele, mas digo:

– Eu odeio seu sarcasmo… – falo revirando os olhos e rindo, enquanto ele dá de ombros – E como assim você acompanha minha vida? Por quê?

– Porque sim. Porque eu gosto.

– Você gosta de… ? De me perseguir…? De curiá minha vida…? Hein…?

– O que é curiá?

Suspiro e termino o segundo cachorro quente. Eu estava com muita fome e nem tinha percebido. Eu continuo apaixonada por ele e nem tinha percebido. Até agora. O mais engraçado é que eu me policiei muito e consegui passar todo esse tempo sem stalkear ele. Na verdade nem tinha muito o que stalkear, porque as redes sociais que eu sabia que ele tinha, eram fechadas e eu não tinha mais o número de telefone dele. E além disso, eu já tinha mudado de celular duas vezes nesse período. Então, mesmo com as contas e nuvens, a gente acaba perdendo coisas… E eu perdi as informações das pessoas que excluíra. Hahaha. Bem feito para mim, então! Eu não pensava nele há muito tempo, lembrava, mas não pensava como costumava a pensar antes, no auge da paixão. E tudo isso para mim foi uma grande surpresa. Sobretudo, o fato de que ele sabe tanto sobre mim e minha vida está tão presente na dele. Qual o interesse desse rapaz por mim? Porque eu sempre soube que ele não sente o mesmo por mim, mas porque essa fixação de saber sobre mim, para que essa curiosidade? E sempre foi assim, quem sempre foi meio stalker foi ele. Eu sempre fiz a linha apaixonada desapegada.

– Vamos voltar pra festa? Ou você quer conversar mais? Revelar mais um detalhe da minha vida? Me dizer que é meu stalker profissional?

Ele fechou a cara e não falou nada. Pagamos a moça da barraca e ele segurou minha mão. Seguimos andando para voltar ao circuito. Quando finalmente falou, não era bem o que eu estava esperando:

– Você quer voltar até os seus amigos?

Parei ainda segurando sua mão e me virei de frente pra ele, fazendo ele olhar diretamente para mim.

– Eu quero ficar com você. E o que você quer?

Ele começou a falar alguma coisa ininteligível e a sacudir a cabeça negativamente, quando puxei sua mão, segurei seu cabelo e o beijei. Estávamos ali, parados entre o basckstage bagunçado do furdunço e o furdunço. E parecia que só existia nós dois. Eu e ele. Num beijo de reencontro quente e ao mesmo tempo cauteloso. Como se os lábios ainda tivessem se re-conhecendo, se apreendendo e se apoderando um do outro.

– Respondi a sua pergunta?

Ele apenas sorriu e seguiu calado até chegarmos ao furdunço. Ao furdunço oficial. Porque ao nosso já tínhamos chegado desde que ele tocou em meu ombro e voltei a sentir todo aqueles trovões de sentimentos que me assustam desde que o conheci. Eu não queria pensar em mais nada. Só queria viver aquele momento, absorver, guardar em uma caixa lá no fundo da minha mente, para que nenhuma intempérie da memória o atingisse e eu esquecesse.

Passava um mini trio todo colorido com umas pessoas fantasiadas de cores em cima. E era assim que eu me sentia. Um arco-íris de ataranto e abobalhamento muito mais gritantes que o próprio trio e o próprio carnaval. Comecei a balançar o corpo ao som da música que tocava, sozinha, meio como se ele não estivesse ali e entrei de novo no clima mágico que aquela festa despertava. Ele se aproximou com o celular na mão, informando que a próxima atração a passar era a banda que a gente gosta e perguntou se eu não queria voltar para acompanhar do início. Agarrei no braço dele e fui para a frente do seu corpo, para que ele fosse meu escudo diante da multidão. E fomos andando e dançando. E bebendo. E parando de vez em quando – para que a polícia passasse ou para nos beijarmos ou as duas coisas.

Perdi totalmente a noção do tempo e como meu celular estava muito bem guardado por dentro da minha roupa perguntei as horas para ele, que como sempre estava com o inseparável relógio de pulso. Ele olhou e se aproximou do meu ouvido.

– Eu sempre fui apaixonado por você – falou em alto e bom som no meu ouvido, enquanto eu apenas esperava saber as horas.

É, ele não falou as horas. E nem precisava também porque eu entrei num estupor tão absurdo que a hora era o que menos interessava. Comecei a ver tudo rodar. Uma pequena vertigem diante da incapacidade de acreditar naquilo. E no momento que ele tinha escolhido para me contar aquilo. Engoli a saliva, virei as costas para ele e continuei andando. Não foi por mal, eu apenas não sabia como reagir. Continuamos agindo normalmente um com o outro e com a festa. Certa vez, ele me dissera que não sabíamos lidar um com o outro. Realmente, às vezes ficava com muita raiva das coisas que ele fazia. E pelo visto ainda faz. Mas não vou deixar transparecer. Não aqui. Não no meu carnaval, no meu furdunço. Ele já tinha me afetado demais, durante todos esses anos. Eu estava eufórica, feliz, com raiva, querendo matar ele, querendo beijar, querendo colocar no colo, dar uma surra, tudo ao mesmo tempo. Eu não sei mesmo se sei lidar com ele. Eu apenas amo ele. E essa revelação estúpida, num momento estúpido, me dá além de trovões, raios, chuvas, sol e todos os fenômenos da natureza. Tudo ao mesmo tempo.

Mas seguimos o percurso de ida e volta, acompanhando nossa banda preferida. E aquela multidão de gente nem se comparava à multidão de sentimentos que insistiam em existir dentro de mim naquele momento. Faltava pouco para acabar o desfile, e aí já deviam ter passado algumas horas, quando eu falei alguma coisa em resposta ao que ele havia dito:

– Você é um idiota!

Continua…

Projeto Salvando Patinhas

Foto enviada por Deise


Hoje quero escrever sobre um projeto que conheci há pouco tempo. Idealizado pela minha querida Deise Marinho e pela amiga dela Mariana. O intuito do projeto, pelo que eu entendi, é resgatar gatinhos na rua, garantir a castração desses animais e em seguida promover a adoção responsável.Faça upgrade do seu plano para usar este bloco premiumAtualizaçãoabout:blankVídeo

Deise é uma guerreirona. Apesar dessa palavra já ter virado um clichê, não consigo encontrar outra. Retada, talvez e também. Eu sempre achei os protetores de animais, uns heróis. Porque é muito difícil. Mas ao mesmo tempo, achava que eram pessoas distantes, que quase nunca estão presentes em nossa realidade. Mas depois que conheci Deise, vi que sim, as heroínas existem e elas podem estar mais próximas do que a gente imagina.

Óbvio que não tenho uma visão romanceada sobre nada , então jamais vou romancear a situação de inúmeras protetoras sérias sobre as quais ouço falar. Elas estão lá por amor aos animais. Elas estão lá, sendo protetoras e muitas vezes pedindo, implorando, se humilhando, abrindo mão de viver suas vidas e comprar coisas para elas, para manter esses animais, porque existem pessoas cruéis e irresponsáveis que abandonam os bichinhos, sem dó nem piedade. Além disso, os poderes públicos também são responsáveis, sobretudo pela omissão e descaso com a causa animal. Antes de ser uma questão importante como a questão de saúde pública, é também uma questão de humanidade, de não crueldade a seres vivos, que merecem e precisam de amor e cuidado.

Como eu disse, o projeto é encabeçado por essas duas mulheronas da porra. E estão sempre precisando de ajuda para comprar ração, produtos de limpeza e promover as castrações. Eu sempre digo que quando tiver uma vida financeira estabilizada, vou ajudar mensalmente alguma causa animal, mesmo que com 10,00 por mês. Cada moeda faz diferença, a meu ver. A gente aprende a ir vivendo com pouco, mas lembrem se não dá para viver com nada. Enquanto eu ainda não posso doar, já que tenho três monstrinhas felinas em casa e não tenho a situação financeira mais bonita do mundo, então convido vocês a ajudarem essas moças e ao projeto.

Ah, o projeto fica aqui em Salvador. Quem quiser entra em contato com as meninas para conhecer melhor. Vamos aproveitar que está chegando a época de final de um ano tão difícil e vamos ajudar ao próximo e aos animais. Eu agradeço a atenção.

Contatos:

Responsáveis pelo projeto Salvando Patinhas 🐾🐾🐾🐾
Whatsapp
Deise : 71 99293-2686
Mariana : 71 99244-1098

Agências bancárias para doação:

✅Banco do Brasil
Agência 1800-7
Conta corrente 42579-6
Deise Marinho Pereira

✅ Caixa econômica
Agência 1449
Op. 001
Conta corrente 24571-5
Deise Marinho Pereira

✅ Bradesco
Agência 7125-0
Conta corrente 0041971-0

✅ Itaú
Agência 8657
Conta corrente 25112-3

✅ Santander
Agência 3324
Conta corrente 01084497-7

✅ Nubank
Agência 0001
Conta corrente 56306487-0

Rafaela Valverde

o furdunço

Bahia Notícias / Holofote / Notícia / Prefeitura de Salvador anuncia novas  datas para Furdunço e Fuzuê em 2019 - 29/10/2018

Já estava há mais de três anos fora de Salvador. Quando minha gata morreu, vi meu último impedimento de sair pelo mundo, desaparecer junto com ela. Depois de enterrar a bichinha, depois de doze anos sendo a humana dela, nada mais me prendia aqui. Porra, eu amo essa cidade, mas eu precisava sair daqui há muito tempo. Profissionalmente, era necessário. Escritores conseguem mais visibilidade no sudeste. Infelizmente. A intenção era voltar assim que me fizesse conhecida. Como isso ainda não aconteceu, sigo em São Paulo, vivendo de escrever. Não é muito, mas com o que ganho consigo me manter e ajudar minha mãe, aqui em Salvador. Além de me dar alguns luxos, sendo que o principal é vir todo ano passar o carnaval, é claro.

Não escolhi dia das mães – desculpa mãinha – nem dia dos pais, foi mal painho, nem São João, nada disso. Meu negócio é o carnaval. Sempre foi. Nasci carnaval. Respiro carnaval. Vivo carnaval. Inclusive trabalho carnaval, porque passo todo o mês de janeiro escrevendo – na revista onde trabalho, em São Paulo – sobre as tendências do carnaval – de Salvador e de outras cidades – mas o de Salvador é único e incomparável. Aí, as escritas culminam com os dez dias, em fevereiro ou março, que passo em Salvador, quando escrevo muito (quase um texto por dia) e faço muitas fotos e vídeos para as redes sociais da revista. Claro que tudo isso foi ideia minha, interessada em não perder meu carnaval, obviamente. Então, agora estava indo para meu terceiro carnaval como turista na minha cidade e colunista da minha festa.

Hoje é o domingo anterior ao início oficial do carnaval, que só será na quinta feira. Hoje acontece o pré-carnaval, que a gente chama atualmente de Furdunço. Mas, o que era furdunço, antes, quando o projeto começou, no ano de 2014/2015, era a ideia de um bloco, com marchinhas, bandas independentes, carros menores, etc. A ideia era construir uma folia alternativa à folia oficial. Mas o furdunço cresceu, trouxe adeptos ao longo dos anos, e pariu filhos como o Fuzuê, que aconteceu ontem, sábado.

Como preciso criar conteúdos para a revista, vou todos os dias para os circuitos. É uma energia tão maravilhosa que emana das ruas durante esse período. Coisa que não se vê em outra época do ano. Puta que pariu, eu tenho o melhor trabalho do mundo! É uma maratona e acabo precisando descansar bastante durante o dia, então acabo interagindo pouco com minha família, mas o pouco que consigo vale muito a pena.

Fora que é uma família muito festeira. Obrigada mãinha. Obrigada painho. Então eles quase sempre acabam entrando na minha doideira. Minha mãe vai para a rua comigo, mas ela sempre volta cedo. Eu não. Eu só saio no lixo, como a gente fala aqui em Salvador. Além disso, tem meus primos e primas que são, em maioria, porra louca como eu. E meus amigos, né bicho? Porra, que amigos!

Então, vamos todos, ou quase todos para todos os dias da folia de Salvador. É verdade que pouca gente por aqui chama o carnaval de folia. É mais algo de fora. Bem, pelo menos eu sempre ouvi muito pouco. Mas a bagaceira rola solta durante aproximadamente dez dias. E é assim que soteropolitano fala em bom baianês: “a bagaceira rola solta.”

O trajeto percorrido no furdunço é menor do que os trajetos convencionais do carnaval. É uma delicinha de festa. Uma excelente introdução aos dias que vêm pela frente. Nosso ponto de encontro é sempre na rua Airosa Galvão, na Barra, em frente ao Cristo. Independente de quem for, nos encontramos sempre ali. Amigos, primos, amigos dos primos, primos dos amigos, namorados, cônjuges, agregados. No carnaval em si, geralmente nos damos mais liberdade, e quase sempre cada um vai para um ponto diferente, apesar de a gente quase sempre se encontrar, mas o furdunço virou nosso lugar, nossa festa, nosso reencontro, nossa resenha.

Saímos em nossos próprios comboios, com carros, coolers e cerveja. Muita cerveja. Ora, eu passo o ano todo economizando e pegando um frio desgraçado só para aproveitar esses dias. Então, desculpa fígado. Aproveitamos o final da tarde e a noite chegou lentamente. As atrações iam passando e eu já tinha circulado pelos arredores, antes de anoitecer e antes de ficar bêbada, para registrar tudo em tempo real, com stories e fazer fotos e vídeos para ir postando aos poucos e matar de inveja os paulistanos, paulistas e brasileiros que não estão aqui.

Então, agora era só diversão. Conversas, bebidas, gargalhadas, danças, muitas danças, paqueras e etc. Era uma turma grande e nem sempre conseguíamos conversar com todo mundo, mas para isso servia o almoço de domingo que minha mãinha preparara antes de sairmos. A filhinha, no caso eu, dela só vinha uma vez no ano e ela me paparicava viu… A casa ficava cheia daquelas pestes que agora estavam ali enchendo a cara comigo.

Eu já tinha sido paquerada, puxada e agarrada algumas vezes, mas agora estava de braço dado com meu primo, o que inibia um pouco os engraçadinhos. Ora, que acinte só ser respeitada por estar de mãos dadas com um homem! Até quando? Eu não venho para o carnaval para ficar beijando ninguém, eu acho um pouco nojento e, é claro que já aconteceu em todos esses anos, mas tinha que ser alguém muito interessante, que me chame muito a atenção.

Estava no meio de uma gargalhada quando senti um toque suave em meu ombro e escutei alguém me chamando: “Rafa…?” Bem, era alguém que me conhecia e era alguém que não tinha me puxado e sim tocado levemente em meu ombro, em meio àquela multidão. E era alguém que não imaginou que eu fosse lembrar ou reconhecer, pois continuou andando. Olhei de relance e o reconheci na hora. Era ele. Ele estava há alguns metros e andava devagar, olhando para trás, olhando diretamente para mim.

Franzi os olhos, depois arregalei e devo ter franzido de novo. Tudo isso numa fração de segundos. Soltei o braço do meu primo e fui atrás dele. Eu saíra de Salvador, três anos e meio antes, apaixonada por aquele homem. Mas o que tivemos, não passou de alguns encontros deliciosamente casuais, porque era só o que ele queria. Mas eu, otariane, me apaixonei. Fazer o quê? Essas merdas sempre acontecem comigo, caralho! Ele tem seis anos a menos que eu, mas o que vejo é um homem diferente. Mais maduro, mais magro do que eu lembrava, apesar de ainda ser gordo, exatamente como eu gosto, mas um homem diferente. Com um pouco menos daquela arrogância dos vinte e poucos anos.

Ele me viu e parou. Falou algo com os amigos que os esperaram mais adiante. Sorri e ele retribuiu o sorriso. Falei: “oi.” Ele respondeu: “achei que tu não ia me reconhecer e se reconhecesse ia fingir que não…”

– Oxe, por quê? – perguntei, mas me dei conta que deixei o impulso me levar, se fosse em outro momento, ou talvez outra pessoa, eu com certeza ia ignorar. Mas, era ele.

– Sei lá, você me excluiu de tudo, depois foi embora, nunca mais nos falamos. Achei que cê tinha raiva de mim. Aliás, oi.

Se aproximou, me abraçou e me beijou no rosto. Eu respondi que realmente tinha ficado com um pouco de raiva mesmo, mas era mais frustração e tristeza. Ficamos um tempo abraçados e eu falei isso no ouvido dele. E ele respondeu, também no meu ouvido: “cê tá linda…”

– E você como sempre galanteador. Obrigada…

O reencontro foi bom, mas a gente precisava tomar uma decisão do que fazer a partir dali. Estávamos exatamente no meio do nosso grupo de amigos e parecia que só existia a gente. Cocei o pescoço e sorri sem dentes, perguntado com os olhos o que faríamos… Ele me puxou pela mão e me levou até seus amigos e me apresentou a eles. Eram um casal de um homem e uma mulher e mais dois rapazes.

Olhei em seus olhos e adivinhei o que ele estava pensando. Falou algo com os amigos, que se afastaram e eu os levei até minha turma. O apresentei a quase todo mundo e depois sumimos dali. Eu sei que esse era meu momento com meus amigos, no furdunço. Mas era ele. Não sei exatamente o que estava sentindo naquele momento. Era um misto de coisas, a noite ficara até mais iluminada. Meus amigos nem iam lembrar no dia seguinte e era provável que até comemorassem que a cerveja ia sobrar. E além disso, era ele.

Era ele. Depois de tanto tempo, ele. Que encontrei – ou ele me encontrou – no furdunço, no carnaval de Salvador, em meio a tanta gente. Era ele…

Continua…

Rafaela Valverde

os rios mortos da cidade

Os rios mais poluídos do Brasil - Estudo Prático

Eu gosto de você

Mas você não gosta de mim

Me ponho a entender

Que vai ser sempre assim

Miro minha insignificância

E me recolho em mim mesma

Como os rios mortos da cidade

Que em meio às andanças

Se mostram pequenos e sujos,

Diante da passada grandiosidade

Se encolhem como lesma

Assim eu faço

Quando lembro que não vou estar em você como você está em mim

Busco ao menos um subterfúgio

Para me livrar desse laço

E da maldita comparação

Com os rios mortos da cidade

E faço em mim jardim

Girassóis no coração

Mas: eu gosto de você

E você não gosta de mim

Eu te quero

Mas em você não encontro reciprocidade

E nem espero

É uma pena

Penso com os olhos úmidos

Quero te ter

Abro um sorriso intrépido

Mas sigo meu lema

De me recolher

E fingir que não existo

Exatamente como os rios mortos da cidade.

Rafaela Valverde